Página inicialMinhas sugestõesEmergências e violência doméstica em Expedição Médica no sertão

Emergências e violência doméstica em Expedição Médica no sertão

Equipe a caminho do local onde mulher foi atacada com uma foice pelo marido. Foto Henrique Mourão
IMG_20171029_071211746Conversa generalizada. Olhares que mais questionam do que pedem ajuda. A sala de triagem coloca frente a frente quem viajou dias, quilômetros em busca de auxílio e a razão de tanto esforço: saúde de graça.
Primeiras horas da manhã são as de maior trabalho para a equipe de triagem.

Primeiras horas da manhã são as de maior trabalho para a equipe de triagem.

 O atendimento oferecido durante a Expedição Médica VV-Dharma chega novamente aos moradores da Serra do Inácio, região com povoados aqui e ali margeando estradinhas de terra que mais parecem depósitos espalhados de pó. Ainda assim, muitas mulheres e adolescentes entram na unidade de saúde rural impecáveis. Banho tomado, cabelos presos, batom. E sorrisos. Hora de nervoso, hora de alegria pura com a visita coletiva. São trinta voluntários entre médicos, estudantes de medicina, enfermeiros, dentistas, psicólogos e outras especialidades da área da saúde, além do pessoal de apoio.
Carmelita ficou sabendo do atendimento e saiu de casa cedo. Trouxe a filha Carla Luane, de dois anos, para consultar com a “médica de criança”. Há três dias a menina não come e só quer saber de ficar jogada no chão. Na saída da sala da pediatra já estava mais tranquila. Trata-se apenas de uma gripe. A filha foi medicada e liberada.  Mas Carmelita ainda não vai pra casa. Precisa esperar a mãe, de 54 anos, que veio consultar por causa de uma dor insistente no ombro, e o marido. Carlos, 25 anos, quer tirar um dente que tem feito ele passar noites seguidas em claro por causa da dor.
Carla Luane, de dois anos, dorme nos braços da mãe, ao abrigo do sol forte lá fora.

Carla Luane, de dois anos, dorme nos braços da mãe ao abrigo do sol forte lá fora.

O que também tira o sono de muitos moradores por aqui é a falta de trabalho. A seca persistente arrasou plantações de feijão e milho. Só a mandioca se mantém viva. Mas a safra demora um ano, entre plantio e colheita. E sem chuva na hora certa, as famílias tiveram que plantar uma, duas, até quatro vezes a mesma lavoura. É necessário esperar. Enquanto aguarda a vez para atendimento com o dentista, Carlos, o marido de Carmelita, me explica o quanto a mandioca é importante pra todos por aqui. A raiz é servida em praticamente todas as refeições. Dela também é feita a farinha, garantia de pirão em casa, alimento para o resto do ano. Mas o consumo da família algumas vezes fica em segundo plano. A mandioca é a moeda de troca possível onde o trabalho e o dinheiro são escassos.
Médico salva vida de mulher agredida pelo marido
Quatro da tarde. E a equipe responsável pelas consultas domiciliares é surpreendida por um pedido de socorro em meio a um atendimento no alto da Serra do Inácio, localidade remota em Betânia do Piauí, a quase quinhentos quilômetros da capital Teresina, no sertão piauiense. O rapaz ficou sabendo da presença dos médicos e veio em disparada na moto. A cerca de quinze quilômetros dali, um homem tinha acabado de tentar matar a esposa com uma foice.
O médico Alexandre Naime Barbosa, chefe da equipe médica volante nem precisa falar nada. Diante da emergência todos sobem rápido na camionete. Fisioterapeuta, fotógrafa, pessoal do apoio. Chegando a casa indicada, a equipe é novamente surpreendida. Uma mulher vem em direção ao carro aos tropeços, exibindo o vestido encharcado de sangue. O golpe de foice provocou um corte profundo de quinze centímetros, que atingiu a jugular. A visão que pode paralisar os voluntários mais inexperientes estava carregada de urgência. Doutor Alexandre usa a própria mão e uma camisa para pressionar o corte e conter a hemorragia. Na pressa quem acaba emprestando a roupa é Carol,  voluntária da equipe de logística e que no início do dia tinha avisado ter pavor de sangue.
IMG_4366

Camiseta usada no socorro à dona Zefinha. Foto Alexandre Naime Barbosa.

Rogério Lupião, engenheiro mecânico que estava no grupo chega sem camisa à central de atendimento da Expedição Médica VVDharma.  Ele deixou a roupa com Carol. Ainda muito abalado, fala sobre o ocorrido. “A mulher é magra como um palito” – e levanta o dedo mínimo pra ilustrar a fragilidade dela. Missionários que realizam ação voluntária na região há mais tempo, logo a identificam. A vítima é Zefinha, cerca de 40 anos, mãe de “uma escadinha de crianças”, mas que vive sozinha com o marido. Os dois são alcoólatras e brigam com frequência, conforme os vizinhos. Os filhos foram tirados por parentes. Agora, Zefinha pode estar perdendo também a própria vida.

Equipe a caminho do local onde mulher foi atacada com uma foice pelo marido. Foto Henrique Mourão

Equipe a caminho do local onde mulher foi atacada com uma foice pelo marido. Foto Henrique Mourão

Primeiro na camionete da equipe, depois na ambulância do município, Alexandre e a estudante de medicina Paula Rodrigues Sampaio fazem o que podem para evitar o pior. A viagem de uma hora e meia é tensa, desce a perigosa serra cheia de buracos e curvas fechadas. Na unidade de saúde, em Betânia do Piauí, o curativo improvisado é substituído. Medicada, Zefinha é levada para um hospital em Picos, cidade referência em saúde para os moradores da região e que fica a mais 200 quilômetros de distância, pela BR-407. No dia seguinte, a confirmação de que ela permanece internada, mas fora de risco. O marido foi preso em flagrante, dentro de casa, por tentativa de homicídio.
Médico infectologista Alexandre Naime Barbosa, da UNESP Botucatu/SP e a estudante de medicina Paula Rodrigues Santos, de Minas Gerais.

Médico infectologista Alexandre Naime Barbosa, da UNESP Botucatu/SP e a estudante de medicina Paula Rodrigues Sampaio, de Minas Gerais. Foto Andrei Polessi.

Traumas e doenças se agravam sem assistência regular
Em dois dias na Serra do Inácio em torno de … pessoas receberam atendimento de saúde e participaram das palestras educativas. As crianças puderam participar de oficinas de desenho e contação de histórias. Educação e saúde caminhando justas. A falta de informações é uma das principais barreiras para a saúde pública. Situação ainda mais grave em áreas remotas como o sertão nordestino.
Durante o trabalho de visitas domiciliares a equipe identificou um paciente com risco iminente de infecção generalizada (sepse). O rapaz de 25 anos tinha caído de moto há uma semana e cortou o rosto. Em casa, sem qualquer acompanhamento médico, o trauma evoluiu para um edema com inchaço causando muita dor e febre. A infecção tinha gerado uma bolha de pus no olho direito e o risco era a bactéria ir para a corrente sanguínea. Ele acabou sendo removido para a Unidade de Pronto Atendimento, em Paulistana, há aproximadamente 100 quilômetros da casa dele. A médica Raíssa Guedes, residente de infectologia do Hospital de Clínicas, em Porto Alegre, acompanhou ele e a mãe para garantir a internação. “Em casos assim a medicação com antibiótico precisa ser aplicada na veia, por isso a necessidade de internação. Em casa, apenas com medicamentos por via oral, o quadro da doença poderia se agravar.” Raíssa participa pela primeira vez de uma missão humanitária e esperava mesmo encontrar casos assim, diante da realidade local.
Nos consultórios instalados pela equipe da Expedição Médica VVDharma a maior parte das consultas é de baixa complexidade, o que evidencia a falta de prestação de serviços básicos de saúde na região. Muitos adultos chegam em busca de tratamento para doenças crônicas, que precisam de acompanhamento regular.

Dona Albertina, 81 anos: beleza e força sertanejas.

Dona Albertina, 81 anos: beleza e força sertanejas.

Dona Albertina sofre com uma catarata em estágio avançado. Cega do olho esquerdo – ela perdeu o globo ocular ainda bebê – agora enfrenta o crescimento da “teia” no direito. Mas, faz questão dizer que “nunca teve inveja de quem enxerga com os dois!”. Aos 81 anos, ela veio a pé e sozinha até o oftalmologista. Queria um remédio pra “tirar o pó da vista”. O médico Wagner Santos, que veio do Amazonas para atender no sertão, pouco pode fazer. “Ela deveria ter sido tratada há muitos anos. Uma cirurgia agora, na idade dela, precisa ser muito bem analisada.” Dona Albertina não se da por vencida. Com a força característica da mulher sertaneja ela recusa carona pra voltar pra casa, onde mora com a filha de quatro netos. O médico precisa insistir para ela sentar e esperar um carro da equipe. Único jeito de fazê-la evitar o caminho serra acima debaixo do sol forte do meio dia. Pra ela, nada demais. “Queria mesmo é voltar enxergar pra trabalhar na roça.”
Últimos comentários
  • O trabalho de vocês é realmente demais!
    Parabéns para toda equipe.

  • Ainda existe jornalismo de qualidade. Parabéns!

  • Nossa só temos que sermos grato por ter pessoas simplesmente maravilhosas e de coração bom,que gostam de ajudar de fazer a diferença ..sem palavras a vocês ..parabéns pelo gesto generoso a todos vocês. ..o mundo precisa de mais pessoas e profissionais do bem ,como todos vocês. .Deus abençoe muito cada um de vocês
    Mais uma vez parabéns

  • Voces são enviados de Deus para essa missão tão nobre.
    São seres humanos especiais que dedicam a esse povo tão sofrido não só o trabalho, mas levam amor, carinho e esperança
    Contribui com esse programa foi o mínimo que pude fazer,
    Desejo a todos muita saúde e prosperidade
    Que Deus derrame muitas bençãos

  • Gi, emocionada com o trabalho deste grupo de voluntários. Não tenho dúvida. É o amor, o mais nobre de todos os sentimentos, que os move nessa jornada no sertão. A gratidão dos sertanejos retorna para ” os anjos” desta expedicao em forma de bençãos. Vocês estão cumprindo a verdadeira missão que devemos assumir: Contribuir pela felicidade alheia sem esperar nada em troca. Parabéns aos integrantes da expedição e à você por tanta sensibilidade e profissionalismo na reportagem.