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Suicídio, a dor invisível no sertão

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Sobre o chão batido, a dureza de uma dor universal. E muito particular. No sertão nordestino muitos fatores colaboram com a invisibilidade. Distância de grandes centros urbanos, falta ou deficiência na oferta de serviços públicos essenciais, desinformação. Quando falamos em suicídio a sub notificação é problema mundial, mas no sertão a pequena estrutura de saúde torna as estatísticas ainda menos confiáveis. E o trabalho de assistentes sociais e psicólogos ainda mais relevante.
Quais sentimentos uma pessoa carrega quando alguém muito próximo comete suicídio – ou quando ela é a sobrevivente de tentativas de tirar a própria vida? O psicólogo Carlos Aragão é especialista em prevenção e pósvenção de suicídios. Há uma década vem se dedicando a estudar o sofrimento extremo – dor que pode levar à depressão, um dos caminhos para o suicídio. Além de estudar, ele também trabalha para incluir o tema na pauta de discussão social. Dados da Organização das Nações Unidas indicam que esse é um desastre que atinge um milhão de pessoas no mundo por ano. No Brasil são 15 mil mortes anuais. Relatório da Organização Não Governamental Save The Children aponta o suicídio como a principal causa de morte entre as meninas de 15 a 19 anos no mundo. O estudo foi feito em 144 países e divulgado em outubro de 2016.
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Conheci o Carlos Aragão no final do ano passado, durante prestação de trabalho voluntário na área de saúde. Na condição de jornalista pude acompanhar a atuação dele nas comunidades quilombolas de Paulistana, no sertão do Piauí, durante a Missão Médica VV. Por lá, a vegetação esturricada pelo sol é o cenário de histórias reais que outros brasileiros, mais abastados e informados, já viram muitas vezes na literatura e dramaturgia. A jovem mulher que perdeu o gosto pela vida depois de duas gestações interrompidas sem explicação… A adolescente que cuida de quase uma dezena de irmãos pequenos porque a mãe desistiu de viver ao ver um dos filhos morrer sem assistência médica… A mulher de meia idade que não sabe para onde o ex-marido carregou o filho depois de uma briga com o sogro. Identificar comportamentos de risco era a preocupação de Carlos. Segundo levantamento divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) o Brasil é o país com maior número de pessoas com transtorno de ansiedade e o quinto em números de pessoas com depressão.

As visitas foram feitas conforme um levantamento prévio de missionários que atuam na região. O procedimento foi sempre o mesmo. Ao chegar o psicólogo se apresentava, dizia porque estava ali, que tinha uma informação preliminar dos acontecimentos envolvendo a família e seguia com a conversa em grupo ou particular. Se alguém dava algum sinal mais acentuado, a conversa privada se prolongava e houve casos em que ele voltou para novos encontros no dia seguinte. O quanto esse esforço seria efetivo era a dúvida naquele momento.
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Estudos internacionais mostram que sempre que uma pessoa morre, entre 20 e 50 pessoas são impactadas brutalmente. Buscar saídas para processar a dor do luto, amenizar o sofrimento muitas vezes não depende apenas da sensibilidade dos familiares e amigos. Falta o olhar técnico. Durante a experiência no sertão, Carlos acabou identificando uma jovem moradora com interesse em buscar capacitação.
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Talita Kelis tem 21 anos e no recente episódio envolvendo o jogo virtual baleia azul, escreveu no Facebook “A prevenção ao suicídio vai além de postar na sua timeline o número de ajuda. É olhar para as pessoas ao seu redor…” Um mês antes, em março, ela tinha ido a Petrolina/PE assistir aulas com Humberto Correa, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), referência em prevenção de suicídio na América Latina e Caribe.
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Talita está estudando o assunto a convite do Carlos – e porque cansou de conviver com tantas histórias tristes, de vidas abreviadas pelo sofrimento silencioso.  Diante do suicídio ninguém pode ser indiferente.
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A delicada força da mulher sertaneja

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